20 fevereiro 2013

Quem faz a diferença: o professor, a instituição de ensino ou o aluno?


Para me ajudar nesta resposta, entrevistei meu ex-colega de faculdade Alessandro Prieto. 

Há 12 anos, Alessandro e eu nos formamos no curso de Letras da Universidade do Grande ABC, instituição que, infelizmente, era pouco respeitada na época – e que talvez hoje seja ainda menos. Entretanto, de lá saíram grandes exemplos de profissionais de sucesso, e Alessandro é um deles.  

Nesta entrevista, ele nos contará um pouco sobre sua trajetória profissional, nos dizendo se ela foi ou não fruto de sua educação adquirida na UniABC. Também nos dirá sua opinião sobre a instituição, os professores, o papel do aluno e a qualidade do ensino superior no Brasil.


Alessandro, primeiramente, gostaria de dizer que fico muito feliz em entrevistá-lo.  Começarei lhe perguntando o seguinte: o que levou você, um aluno com tanto potencial para estudar nas melhores faculdades, a escolher  a UniABC? No meu caso,  a escolhi porque era de fácil acesso entre minha casa e meu trabalho e também porque a mensalidade do curso que eu tanto queria (Letras) cabia em meu bolso. Eu estava ciente de que a UniABC não estava entre as melhores universidades, mas nela resolvi dar o melhor de mim. Com você também foi mais ou menos assim?

Sim. Eu havia sido aprovado em uma Universidade Pública e em diversas outras particulares, mas na pública seria impossível compatibilizar meu horário de trabalho com as aulas; e, parar de trabalhar não era uma opção na época. A Uni ABC se encaixava no meu bolso e na distância para eu poder trabalhar. Ainda mais que eu havia desistido do final de meu 2º ano de Engenharia Química na Escola de Engenharia Mauá para seguir a carreira de Humanas, ou seja... não tinha muito mais margem para erros.

Além disso um grande professor da E.E. Mauá, que compartilhei minha decisão me disse: “Você tem um grande potencial, não é a universidade que vai tirar isso de você!”.

Resolvi acreditar nisso com todas as minhas forças... e hoje tenho a certeza que é verdade.


Lembro que você era um aluno exemplar, que até dava monitoria de Inglês aos sábados (aliás, aprendi muita coisa com você). Na sua opinião, é o aluno quem faz a instituição de ensino?

Não. Pura e simplesmente dizer que o aluno faz a instituição de ensino é eliminar totalmente a responsabilidade de que a instituição de ensino precisa prover os recursos adequados, professores capacitados e prover os melhores meios possíveis para facilitar o aprendizado e direcionar os alunos em sua trajetória profissional.

Porém, o aluno faz seu caminho dentro da instituição de ensino independentemente do nome, endereço, reputação ou nota desta instituição. Temos péssimos exemplos em grandes instituições e ótimos exemplos em instituições sem fama. Considero como fatores principais o “quanto” esse aluno  realmente quer se esforçar, “de que” está disposto a abrir mão para conseguir seus objetivos e principalmente o “gostar” de estudar.

O aluno, sim, ajuda e muito na imagem da instituição, pois é o que ele se tornou que irá perpetuar o nome da instituição positiva ou negativamente. Não tenho a mínima vergonha de dizer que me graduei na UniABC.


Quando penso na época da faculdade, minha melhor lembrança são os professores. Na minha opinião, eles eram tão bons que me fazia querer ser como eles. No meu caso, adotei o estilo do Eduardo Gasques (de Língua Portuguesa), mas também adorava o Julio César (de Filosofia), o Marco Antônio (de Literatura Inglesa e Norte-Americana), o Ovídio (de Literatura Portuguesa), o José Roberto (de Língua Inglesa), a Suzana (de Teoria Literária), o Manoel Guaranha (de Literatura Brasileira) e o Juvino (de Língua Portuguesa e Latim). Tinha também o Márcio Graça (de Didática), que talvez fosse mais uma figura cativante do que um bom professor, mas com quem eu aprendi como contar um pouco de história dentro da sala de aula.  Enfim, acredito firmemente que todos eles eram grandes mestres e que me ensinaram a lecionar.
E você, quais suas lembranças dos professores de Letras da UniABC? Carregou o estilo ou o exemplo de algum deles para a sua vida profissional?

Todos os seus exemplos são perfeitos, e sem dúvida fazem parte de minha lista de lembranças também. Se eu tivesse que citar uma lembrança marcante seria a primeira prova de língua portuguesa do Prof. Eduardo Gasques que mais de 80% da classe ão conseguiu fazer porque era pura análise sintática e morfológica nível ‘master’ com a música do Roberto Carlos... lembra? E quando sai da prova e disse que havia gostado e ido bem, quase fui espancado... rs rs rs.

Não tenho do que reclamar da maioria de nossos professores, eles sempre se dedicaram ao máximo. Tenho certeza que levo um pouco de cada um – com suas irreverências, seriedade, profissionalismo e diversão.


Mas apesar de possuir bons professores, a UniABC não era vista como uma universidade conceituada (e seu conceito pode ter piorado após o ano 2000, quando mudou-se para Santo André e passou a aceitar alunos mais pela quantidade do que pela qualidade). Desta forma, você acredita que o papel do professor é mais importante que o papel da instituição de ensino? Você acha possível que haja excelentes profissionais no ‘lugar errado’? Como se explica esta divergência?

Honestamente o ensino no Brasil virou puramente negócio, deixou-se de lado o que realmente se quer construir, qual conhecimento ou tecnologia se quer criar. Hoje uma boa escola de ensino médio se promove por ter mais alunos aprovados no vestibular – como se isso significasse algo além de que os treinou bem para isso. Agora quantos desses alunos realmente foram formados e preparados para o que vão enfrentar no ensino superior?

No caso da UniABC o que eu via era que tínhamos muitos bons professores, mas a quantidade de péssimos alunos era maior. A má reputação da universidade (que acabou se criando em algum momento) fez com que virasse um ‘acesso fácil’ à cadeira universitária – muitas pessoas descomprometidas e simplesmente querendo um diploma, nada mais. Isso acaba deteriorando o conjunto da obra.

Os professores são seres humanos, e acabam também perdendo o encanto se o todo não se enquadra, uma hora todo esse esforço e vontade vão diminuindo – e o ambiente passa a ser ‘errado’ para toda aquela disposição e energia. Acredito que existam em nosso país, muito mais professores excelentes do que pensamos. Porém as condições às quais eles estão inseridos não favorecem, e não temos tantas oportunidades assim para que eles simplesmente procurem um outro lugar melhor.


Em 1999, comecei a lecionar no Estado, mas logo me dei conta de que não poderia continuar exclusivamente na área da Educação, já que tinha responsabilidades com despesas que não eram cobertas pelo salário de um professor de escola pública, como a prestação da faculdade, do meu carro e do seguro. Portanto, quando eu já estava no último ano do curso (em 2000), comecei a estagiar numa empresa multinacional. Como era secretária bilíngue, o curso de Letras me foi muito útil. A partir de então, passei a lecionar somente em paralelo (aos sábados e à noite, depois que me formei). Naquela época, dar aulas tornou-se mais um hobby do que uma fonte de renda.  Mas após 09 anos, a área da Educação voltou a ser exclusiva em minha vida. Foi quando decidi ser mãe.  

E você, quando e por que partiu para o mundo corporativo? Lembro que você já era um excelente professor de Inglês antes mesmo de terminarmos o curso. Você desistiu de lecionar? Conte-nos um pouco sobre sua trajetória profissional.

Bem, segui como professor de inglês, português e comunicação oral por muito tempo no Brasil. Tive uma oportunidade e mudei para o Canadá onde vivi por bastante tempo e pude viver em um mundo onde EDUCAÇÃO é princípio e filosofia de vida. Ao retornar para o Brasil, retomei a área da educação mas com um foco em treinamento e desenvolvimento corporativo. Segui essa trajetória com minha própria empresa de Consultoria na área de desenvolvimento humano quando fui convidado por uma multinacional à assumir a área de Treinameto e Desenvolvimento de uma de suas fábricas.

Adorei a oportunidade, pois era algo que ainda minha experiência não estava consolidada e seria uma grande chance. O trabalho se desenvolveu e assumi a região da Amèrica Central e Sul – após quase 5 anos decidi encarar o desafio da Diretoria de Recursos Humanos para América Latina de uma grande Multinacional Americana no ramo industrial e hoje continuo à frente da área de RH em uma multinacional no ramo de e-commerce. Uma carreira bastante variada. Hoje já começo a me estruturar para paralelamente lecionar. Quero ainda esse ano voltar para a Universidade, mas agora como professor e poder passar um pouco de minha energia e conhecimento. Ser professor é um orgulho e um dom que nunca deixarei de lado.


Nos processos seletivos, eu sempre tinha em mente que precisava me destacar dos demais só pelo fato de ter vindo de uma faculdade sem nome. Eu sentia que precisava de um esforço redobrado para quebrar o preconceito e mostrar o que eu sabia. Você alguma vez se sentiu assim?

Honestamente falando, NUNCA. Como disse, sempre tive muito orgulho do quanto me esforcei e batalhei para tudo que consegui na vida meu pensamento sempre foi que se a Universidade da qual eu vim fosse o único fator preponderante de minha avaliação; aquela seria uma empresa que não estaria em linha com meus valores pessoais. Sempre procurei demonstrar ao máximo, minhas habilidades e competências e principalmente a aplicação de minhas experiências e resultados alcançados.

Não posso negar que durante minha trajetória houve sim casos de preconceito e perguntas sem a menor noção; coisas do tipo: “Como você conseguiu um MBA na FGV sem ter uma base universitária tão boa?” Coisa do tipo ‘acreditem se quiser...!!!’


Como você acha que o curso de Letras da UniABC  contribuiu para seu o seu sucesso profissional?

Principalmente me ajudou a desenvolver uma habilidade que hoje considero bastante importante e rara: COMUNICAÇÃO (tanto oral como escrita), além de ter tido a oportunidade de aprender ainda mais sobre pessoas e tomar gosto por uma de minhas linhas favoritas de estudo hoje: Neurociência e comportamento Humano.


Já faz 12 anos que nos formamos (e estou surpresa de ainda me lembrar que o verbo “fazer” no sentido de “haver” nunca vai para o plural, correto? Rsrs). De lá para cá, o que você acha que mudou na qualidade do ensino superior no Brasil? E que conselho você daria àqueles que estão ingressando na faculdade hoje?

Vejo que cada dia mais o ensino superior no Brasil se torna um comércio. Não vi nenhuma evolução no sentido de qualificar melhor os cursos e os alunos. Pior ainda, não vi qualquer melhoria em como tratamos e desenvolvemos nossos professores.

Temos que respeitar e ter orgulho de nossos professores; e acima de tudo valorizá-los. Que país queremos contruir se não valorizamos àqueles que ensinarão nossos filhos a contruí-lo?

Como conselho, eu diria: ESTUDEM!!!

Dediquem-se, sejam exigentes com seus professores e mostrem para eles que o trabalho deles não é em vão. Faça com que seus professores se orgulhem de vocês e consequentemente deles mesmos por terem sido parte de sua formação.
Escolham seu curso e sua universidade muito bem, e uma vez tomada sua decisão faça o seu melhor. Sucesso não depende da sorte, depende de esforço, dedicação, muito trabalho e perseverança.


Muitíssimo obrigada pela sua colaboração em meu blog.  Desejo a você muito sucesso e que você sempre possa compartilhar seus conhecimentos e experiências,  pois certamente são de muito valor para muita, muita gente... Um grande abraço e até breve!

Muito Obrigado. Para mim é um privilégio ter participado. Espero poder sempre colaborar com o blog.
Grande Abraço. Até Breve.

Um comentário:

  1. Parabéns pela entrevista. Realmente a instituição é reponsável em prover os recursos adequados e professores qualificados, mas o aluno deve fazer o seu caminho na instituição se dedicando e valorizando os professores.
    O dia em que o Brasil resolver exigir mais da educação muita coisa vai mudar, pois a educação é uma base que reflete em tudo o que somos.

    Um grande abraço,
    Paloma

    ResponderExcluir